Da sala de aula à rua: cão-guia amplia autonomia de bailarina cega e vira companheiro inseparável em SP
- 29/04/2026

Cão-guia amplia autonomia de bailarina cega e vira companheiro inseparável em SP Enquanto os passos ecoam pela sala e o som guia o ritmo dos alunos, Faísca permanece imóvel, mas atento a cada movimento. Deitado, em silêncio, o cão-guia da bailarina e professora de dança Giseli Camilo espera o fim da aula. Aos 47 anos, Giseli conduz uma turma de ballet formada por pessoas cegas e é ali, entre giros e compassos, que a parceria entre ela e o fiel escudeiro ganha ainda mais sentido. Cega devido a uma catarata congênita que evoluiu ao longo dos anos, ela encontrou no cão-guia, recebido em julho de 2025, mais do que autonomia: encontrou liberdade. “O Faísca representa para mim amor, independência e autonomia, porque depois que eu recebi ele, além do fato de estar me guiando, eu não dependo mais de ninguém. Ele vai pra todos os lugares que eu vou. O cão-guia é vida. A bengala te ensina a encontrar as coisas, mas o cão-guia ele te impede de muitas coisas, evita acidentes e você nem sabe no que ia bater. Ele é meu bebezão ”, disse Nesta quarta-feira (29), quando é celebrado o Dia Internacional do Cão-Guia, histórias como a de Giseli ajudam a traduzir, na prática, o papel desses animais na vida de pessoas com deficiência visual. Mais do que companheiro, o cão-guia representa independência, segurança e a possibilidade de ir e vir, uma transformação que a professora vive desde o ano passado. Natural de São Paulo, Giseli conta que, por nascer com catarata congênita, teve uma infância marcada pela rejeição em diversas escolas e foi alvo de bullying por parte de colegas. Com isso, a mãe dela, que só tinha o ensino fundamental, a tirou da escola e passou a alfabetizá-la em casa. “Eu tinha baixa visão e ninguém naquela época entendia o que era, porque eu conseguia brincar me orientando pelo contraste, mas não conseguia enxergar no quadro. As professoras me chamavam de preguiçosa”, conta. Bailarina cega Giseli Camilo, de 47 anos, ao lado do cão-guia Faísca Arquivo Pessoal Foi somente aos 24 anos que Giseli voltou a estudar. Ela cursou supletivo, se formou em educação física, e, por último, fez especialização em dança e yoga. "Eu enxergava 20% do olho esquerdo e 5% do olho direito. O olho direito eu perdi com 16 anos. E aí eu fiquei até os 38 anos com 5% do olho esquerdo. E aí, depois, com 38 anos, eu perdi tudo. E minha mãe tentou me matricular em escola de danças várias vezes, mas na minha época eles não aceitavam crianças com deficiência nas escolas. Era muito difícil". E complementou: "Além disso, as pessoas acham que deficiente visual é só quem é cego total, mas baixa visão é também. Eu já passei por muito preconceito quando eu tinha baixa visão. Ao mesmo tempo que as pessoas não queriam me incluir por eu ser deficiente visual, muita gente achava que eu fingia que não enxergava". Atualmente, Giseli é professora de dança na Associação Fernanda Biachini, na capital paulista, onde coordena o balé de cegos, dando oportunidade para que outras pessoas como ela, sintam a mesma paixão. Também dá aula de danças para pessoas com deficiência física e autistas. Ela ressalta que já tinha superado muitos desafios e alcançado grandes vitórias, mas faltava algo que almejava desde pequena: a autonomia. "Desde pequena, eu sempre gostei de dançar. Ficava na frente na televisão quando conseguir ver um pouco só olhando as danças. Amo demais". Giseli afirma que precisava de ajuda no caminho para o trabalho e para sair de casa. Foi quando soube, por meio de um programa de televisão, que era possível se inscrever para o programa de cão-guia do Instituto Adimax, de Salto de Pirapora, que entrega animais adestrados gratuitamente para candidatos que cumpram os requisitos (veja mais abaixo). "Era 2018 e estava acompanhando o Caldeirão do Huck quando eles falaram sobre o Instituto Adimax. Me inscrevi. Um instrutor foi na minha casa e na época morava com minha mãe e irmã. Teve toda uma avaliação para ver se eu poderia receber. Eu passei em todos os quesitos, mas na questão do imóvel não porque na época minha mãe morava num apartamento pequeno, do CDHU, com minha irmã e sobrinhos crianças. O instrutor disse que o cão-guia teria que ter um espaço para ficar diretamente comigo para ficarmos conectados". A professora ainda conta que logo após as visitas do instrutor o pai adoeceu e ela precisou ajudar nos cuidados. "Cuidei do meu pai por um período e não entrei mais em contato com o instituto. Meu pai faleceu e, depois de um tempo, eu fiquei mal e fiz uma cirurgia da retirada do útero. Quando recuperei, aí eu voltei a entrar em contato com o instituto. Fui morar sozinha e me disseram que tinham um animal com meu perfil". Giseli recebeu seu amigo de quatro patas da raça Labrador em julho de 2025. Ele chegou para ela aos 2 anos, após ser treinado. Desde então, Faísca a acompanha no trabalho, dentro de casa e na rua, o que a deu mais liberdade. "Ele assiste às aulas que eu dou o tempo todo, e às vezes ele até levanta. Quando eu estou dando aula de ritmos, por exemplo, ele levanta, principalmente quando a galera fica empolgada. Parece até que ele quer dançar. Ele é muito engraçado". Giseli Camilo é professora de dança em SP Arquivo Pessoal Quando Faísca completou dois meses ao seu lado, Giseli fez questão de fazer uma publicação nas redes sociais relatando que no começo estava com medo de não conseguir entender a condução, mas que tudo deu certo e havia ganhado um companheiro inseparável. "No início, fiquei com muito medo. Achei que não ia conseguir entender sua condução, nem perceber quando você abaixa o focinho para cheirar o chão, ou até mesmo quando você se coloca na minha frente para evitar que eu sofra algum acidente. A cada dia que passa, percebo como você é especial e como Deus escolheu certinho um anjo para cuidar de mim em forma de cachorro. Quanto mais eu confio em você e você me conhece, mais nossa caminhada vai se tornando uma única caminhada de dois seres que se tornaram um", escreveu. E ressaltou: "Esse é só o começo da nossa jornada, que vai durar muitos e muitos anos. Estou muito feliz por ter um companheiro como você, Faísca, que me protege, me acompanha e está sempre ao meu lado em todos os momentos e em todos os sentidos". Ainda conforme Giseli, um dos seus desejos é que tenham mais políticas para incentivar o treinamento de cão-guia e adequação dos espaços para pessoas com deficiência visual. "As pessoas ainda não sabem como é um cão-guia e, sem querer, acabam atrapalhando o trabalho do cachorro. Tem gente que assobia para ele quando estou na estação de metrô, pessoal puxa meu braço para tentar contato com ele, querem dar comida. E, às vezes, quando vou explicar, as pessoas não gostam. Contamos com o apoio locais como o Instituto Adimax, mas ainda é muito pouco. Não podemos ser invisíveis, precisamos e merecemos muito mais”, ressalta. Texto que Giseli Camilo fez para seu cã-guia Faísca nas redes sociais Reprodução/Instagram Treinamento e adoção O programa Cão-Guia do Instituto Adimax, que fica em Salto de Pirapora e se tornou centro de referência em treinamento de cães-guias da América Latina, é responsável pela entrega de mais de 104 cães, mais da metade dos animais em atividade no país. “O cão-guia, não é apenas uma ferramenta de autonomia, é um passaporte social. A pessoa com deficiência que conduz o cão-guia, passa a sair mais, a ser vista. Ninguém interage com uma bengala, mas todos querem interagir com um cão”, explica Fabiano Pereira, coordenador técnico do Instituto Adimax. A quantidade de cães em atividade ainda é pequena se comparar com o número de pessoas com deficiência visual severa no país, que ultrapassa 7 milhões segundo dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Cães-guia são treinados para auxiliar pessoas com deficiência visual Instituto Adimax/Arquivo pessoal Segundo o Instituto, o objetivo é apoiar a inclusão de pessoas com deficiência ou em situação de vulnerabilidade e o bem-estar animal. Com isso, antes de chegarem ao seu destino, os cães são acolhidos por famílias voluntárias onde ficam pelo período de um ano. O papel dos socializadores é expor os animais às mais diversas situações do cotidiano, para promover seu desenvolvimento e acostumá-los à rotina. Depois desse período, os cães voltam para o instituto e ficam entre 4 e 6 meses em treinamento. Após formados, poderão ser doados para dar início a missão: transformar a vida de pessoas com deficiência visual. Além do Programa Cão de Assistência, o Instituto conta com outros 10 programas sociais que tem como finalidade a inclusão social e cuidado de pessoas em vulnerabilidade. A entrega do cão guia é feita de forma totalmente gratuita aos candidatos que preencham os requisitos do Programa. A inscrição é feita diretamente no site. Faísca quando terminou o treinamento para ser cão-guia Divulgação/Instituto Adimax Giseli com o cão-guia Faísca Arquivo Pessoal Bailarina Giseli Camilo Arquivo Pessoal
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